Desigualdade em números: o que o Gini não conta sobre a distribuição de renda no Brasil
O coeficiente de Gini é o indicador mais usado para medir desigualdade de renda, e o Brasil tem um dos piores resultados do mundo nessa métrica. Mas o Gini tem limitações conhecidas: ele não captura bem a concentração no topo da distribuição, porque depende de dados de pesquisas domiciliares que subestimam a renda dos mais ricos.
Uma análise que o Escopo Fiel realizou com base em dados da Receita Federal — que incluem declarações de imposto de renda e informações sobre dividendos e rendimentos de capital — revela que a desigualdade brasileira é ainda mais extrema do que o Gini sugere.
O 1% e o 0,1%
Os dados da Receita Federal mostram que o 1% mais rico da população brasileira concentra 28,3% de toda a renda do país — número já impressionante. Mas quando você olha para o 0,1% mais rico, a concentração salta para 11,4%. E para o 0,01%, chega a 4,7%.
Para ter uma referência: os 0,01% mais ricos do Brasil são aproximadamente 22 mil pessoas. Essas 22 mil pessoas recebem, juntas, mais renda do que os 100 milhões de brasileiros que estão na metade inferior da distribuição.
"Quando falamos em desigualdade no Brasil, tendemos a pensar em ricos versus pobres. Mas a história mais importante é sobre os muito, muito ricos versus todos os outros. É uma concentração de riqueza que não tem paralelo em países com o mesmo nível de desenvolvimento."
De onde vem essa renda
A análise dos dados da Receita Federal revela que a renda do topo da distribuição tem uma composição muito diferente da renda do restante da população. Para os 90% mais pobres, a principal fonte de renda é o trabalho assalariado. Para o 1% mais rico, dividendos e rendimentos de capital já representam mais da metade da renda total — e esses rendimentos são, em grande parte, isentos de imposto de renda no Brasil.