Como o Brasil vota: análise de 30 anos de eleições revela padrões que a mídia ignora
Trinta anos de eleições democráticas no Brasil produziram uma quantidade enorme de dados — e uma quantidade surpreendentemente pequena de análises que vão além do resultado imediato de cada pleito. O Escopo Fiel passou os últimos 18 meses construindo um banco de dados com todos os resultados eleitorais brasileiros desde 1994, cruzados com indicadores socioeconômicos, demográficos e geográficos. O que encontramos desafia algumas narrativas muito repetidas sobre como o Brasil vota.
A primeira surpresa: a ideia de que o Brasil está dividido entre um "norte pobre e petista" e um "sul rico e conservador" é uma simplificação que não resiste a uma análise mais cuidadosa. A realidade é muito mais fragmentada e interessante.
O mito da divisão norte-sul
É verdade que o PT tem desempenho historicamente melhor no Nordeste e que partidos de direita dominam o Sul. Mas quando você olha para os municípios individualmente, a variação dentro de cada região é enorme. Há municípios no Nordeste que nunca elegeram um candidato de esquerda para prefeito. Há municípios no Sul com tradição operária e sindical que votam consistentemente em partidos de centro-esquerda.
O que nossos dados mostram é que o fator mais preditivo do comportamento eleitoral de um município não é a região geográfica, mas a composição econômica local: municípios com economia baseada em agronegócio tendem a votar diferente de municípios com economia baseada em serviços ou indústria, independentemente de onde estejam no mapa.
"Quando você para de olhar para estados e começa a olhar para municípios, o Brasil fica muito mais complexo e muito mais fascinante. A polarização que vemos nas manchetes é real, mas é uma média que esconde uma diversidade enorme."
A estabilidade que surpreende
Outro achado relevante é a estabilidade do comportamento eleitoral ao longo do tempo. Municípios que votaram em determinados candidatos em 1994 têm uma probabilidade muito maior de votar em candidatos do mesmo campo político em 2022 do que o debate público sugere. A volatilidade eleitoral brasileira, muito comentada pelos analistas, é real mas concentrada em um segmento específico do eleitorado — principalmente nas grandes cidades e entre eleitores de renda média.